Pequeno surto entre-músicas

Eu preciso de uma noite inteira dançando, a dança como catarse pra esquecer o que eu não consigo mais fingir que não está dentro de mim. Eu preciso de uma pista cheia de gente bêbada, com luzes piscantes e música ensurdecedora, pra me fazer esquecer do seu rosto, um rosto que povoa minha memória, meus pensamentos, a cada respiração eu penso em você, em como eu gostaria que você estivesse aqui, dançando comigo, rindo, celebrando comigo. Minha alegria não é completa sem você, não é mais do que uma mera sombra do que já senti um dia. Sonhei com você esta noite, e você estava tão triste e chorava no meu colo, e eu tenho vontade de chorar só de me lembrar disso. Como você está agora? Não sei, não faço a menor ideia. Não sei se está bem, não sei se está feliz ou triste, ou preocupado, ou sequer se ainda pensa em mim. Eu tento, juro que tento esquecer você, com tanta força como jamais tentei fazer qualquer coisa na vida. Entrego-me à catarse, danço de olhos fechados e atraio olhares, surpreendendo até quem me conhece há muito tempo, tal é minha entrega à dança. Preciso fugir de mim e do tanto de você que ainda existe em mim – eu não consigo separar quem sou eu e quem é você dentro de mim. Sim, eu bebi. Não o suficiente pra perder o ferrenho controle que mantenho sobre mim mesma – só você consegue fazer isso, pode contabilizar na sua lista de conquistas mais esta –, mas só o suficiente pra conseguir ficar um pouco alegre, o que tem sido difícil ultimamente. O suficiente pra tentar vencer a dor ainda que momentaneamente, a saudade que a cada dia me corrói, como se fosse um câncer, devorando cada célula do meu corpo. Danço, danço além do que minha combalida resistência física e respiratória permitem, dancei até ficar sem ar, até passar mal por não conseguir mais respirar. Dancei pra tentar te esquecer – mas cada letra de música canta teu nome, cada vez que fecho os olhos é teu rosto que enxergo. Luto contra mim mesma, luto pra esquecer tudo, luto pra tirar o que ainda há de você dentro de mim, mas é como me matar lentamente. Enfeito-me, seduzo, sorrio, mas tudo me parece vazio. Procuro seu rosto em todos os outros rostos. Sinto as lágrimas assomarem aos olhos com muito mais frequência do que gostaria, e mesmo agora, quando fugi por um momento da minha pseudo-alegria , sinto vontade de chorar por pensar o quanto estaria mais genuinamente feliz com você aqui comigo.

Vou voltar a dançar. Preciso esquecer de mim e de você, porque, dentro de mim, por mais que eu tente negar e esquecer, nós somos um só, e você está aqui comigo. Ainda que sua presença esteja apenas na ausência, ainda que eu tente negar e esquecer, você está sempre comigo.

Porque eu odeio o dia das mães e dos pais




Podem me chamar de insensível, podem achar absurdo, mas eu não suporto essas datas comerciais. Cumprimento por educação, por tradição, mas detesto (a data, não necessariamente cumprimentar quem curte e acha importante). Já mencionei o assunto quando falei sobre o Natal, e nem vou citar o dia dos namorados pra não dar margem a gracinhas. Mas e o dia das mães? E o dia dos pais?

Galera, na boa, essa visão cristã-romântica de que mãe e pai é a melhor coisa da vida nem sempre funciona. Em prol do aumento das vendas o comércio ENCHE NOSSO SACO o tempo todo nas semanas que antecedem essas datas, sem se importar com o sentimento das pessoas.

“Ah, mas mãe e pai são as melhores coisas que existem, e devem ser homenageados à exaustão no seu dia e blá blá blá”.

Ah tá. Então usa esse argumento pra uma pessoa que foi espancada pelos pais a vida toda. Pra alguém que sofreu abuso sexual do próprio pai. Pra alguém que foi abandonado numa lixeira (já que isso parece que virou moda), ou pra quem cresceu vendo os pais se drogarem e/ou se embriagarem. Pra quem viu os pais serem presos por assassinarem a irmã de cinco anos, como é o caso dos filhos do casal Nardoni. Explica isso pra alguém que tem a coragem de matar os próprios pais. Ou pra quem tenta entender como um pai ou uma mãe pode matar os próprios filhos.

Explica também como alguém que perdeu o pai ou a mãe recentemente consegue não se sentir deprimido e com choro fácil no meio de todo esse marketing sentimentalóide. Ou, pior, pra quem perdeu os filhos de forma trágica, como os pais dos adolescentes que foram mortos na chacina da escola em Realengo. Explica pra uma mulher, cujo sonho sempre foi ter filhos e não pode tê-los, como reagir nessa época. Ou pra uma que vê seu sonho de ser mãe se desmoronar diante de um aborto espontâneo.

Quem teve uma vida tranquila ao lado de pais carinhosos não precisa de um dia pra lembrar disso. Quem não teve, bem poderia ser poupado de toda essa avalanche de pressão midiática colocando sal em feridas que, provavelmente, nunca vão cicatrizar.

Meu momento coelho


Não é que eu tenha abandonado o blog.

Na verdade eu tenho dois problemas graves que têm me impedido de postar: a impossibilidade de acesso à internet (obrigada, Oi, GVT e Net!), e o fato de estar ligeiramente enrolada. Como eu sei que a tendência é que eu me enrole por completo (muito) em breve, é pouco provável que eu poste nos próximos dias (semanas, meses). Ou não também, pode ser que eu precise respirar, algo me chame muito a atenção e eu volte aqui pra postar qualquer coisa. Já tive ideias de textos, mas me falta tempo, e aí elas fogem.

O fato é que eu tenho tentado conjugar um mestrado e uma segunda graduação, além dos ensaios de um espetáculo de conclusão de curso e musculação - esta última anda bem defasada, coitada. Não tem sido fácil (minha orientadora e meu co-orientador dizem que eu preciso namorar - bem, não é exatamente esse o termo que eles usam - mas isso não é uma coisa que se mostra acessível no momento, logo, é algo em que não quero pensar). Portanto, se alguém ainda vem aqui que não seja por acaso (estripulias do Google), eu sinto muito. Nunca fui de ficar muito tempo sem escrever, mas o problema é que eu tenho sido obrigada a escrever DEMAIS nos últimos tempos - nada muito interessante pra maioria, a ponto de ser postado, eu garanto (a menos que vocês se interessem por Antropologia, Sociologia, Iluminação Cênica, História Comparada ou História das Religiões - sim, além do mestrado em História Comparada eu estou fazendo uma segunda graduação em Dança também. Não perguntem onde se encaixam essas disciplinas na graduação, tô pra ver formação mais variada que a de Dança). Quando muito eu ando reclamando pelo Twitter ou pelo Facebook, que é o que eu tenho acesso mais facilmente pelo celular.

Então eu vou ali porque o tempo urge, e eu tenho quase mil fotos pra editar antes de ir pra aula do mestrado - e ensaiar à noite.

Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay...


Eu já acreditei em muita coisa ao longo da vida. Na verdade minha busca espiritual foi longa e, como uma pessoa curiosa e contestadora que sou, às vezes me parecia que seria infinita. Talvez seja mesmo, afinal, mas isso não vem ao caso. Graças a essa curiosidade, já pesquisei muitas coisas; ainda pré-adolescente comecei a ler um livro das minhas tias sobre "mestres ascencionados", algo a ver com chamas coloridas que nunca entendi direito. Houve uma época que quis ser bruxa e até escrevi para o Paulo Coelho - obviamente ele não tinha muito tempo para atender garotas de 14 anos.

Pesquisei também coisas mais "institucionalizadas", digamos assim. Conheço algo de Umbanda e Candomblé, mas a pluralidade me incomodava. Sempre cri num ser Único e Supremo, e por isso as entidades dos cultos afro-brasileiros me confundiam, pra dizer o mínimo. Por isso também meu interesse pela Wicca foi bem curto - ainda mais curto, eu diria, já que paganismo estava bem longe do que eu conseguia aceitar. Li as principais obras do Espiritismo, mas tudo me pareceu "científico" demais, quase acadêmico, e não era isso que eu queria. Até ir parar no que pode ser a maior contradição da minha vida, dados meu espírito e minha personalidade: o protestantismo. Lá eu sosseguei por muito tempo, e acho que, apesar de passível de contestação por alguns, por enquanto ainda continuo sossegada – embora os questionamentos e a insatisfação com as posturas adotadas pelos meus “irmãos” venham aumentando com o passar do tempo.

Mas uma coisa que sempre me acompanhou na minha fase pré-protestante foi o esoterismo. Sempre adorei incensos, signos, cristais, velas, todas essas coisas, e adoraria criar um gnomo no meu quintal (mas eles nunca me deram ideia). Obviamente, depois que adotei o protestantismo como linha religiosa, gnomos passaram a ser seres interessantes para aventuras de RPG, cristais ficam lindos enfeitando a estante (onde estão os meus), e velas são para serem usadas quando falta luz (ou num jantar romântico, ou ainda no “pós-jantar”, depende da imaginação de cada um – e eu tenho bastante). Mas algo sempre me chamou a atenção, e chama até hoje: signos.

Não falo de previsões ou coisas do tipo. Falo da relação entre o signo e a personalidade dos nativos. A parada voltou a me deixar cismada de uns 5 anos para cá, quando, durante um debate no corredor da faculdade, uma amiga de pouco tempo exclamou, exasperada: “para de ser tão escorpiana!!” Tipo, oi? Como assim? Aí eu voltei a pensar no assunto. E tenho pensado nisso sempre que vejo certas atitudes das pessoas. Por exemplo, eu já “previ” atitudes, reações e até respostas de pessoas que eu sequer conhecia, baseada na convivência que tive com outras de mesmo signo. Mas eu gosto de me usar como rato de laboratório, e em geral minhas análises são efetuadas sobre mim mesma.

Para exemplificar, recentemente num momento pra lá de insólito uma pessoa me disse: “que foi? (...) Não dá pra esconder nada agora”. E realmente não dava, e, raios, eu não estava escondendo nada! De onde saiu isso? A mesma pessoa já me disse que sempre tem a impressão de que eu estou escondendo alguma coisa. Gente. É óbvio que eu não tenho vocação para “big-sister” ou algo que o valha – até porque eu odeio ser julgada, e quero que a opinião dos outros sobre mim vá pro quinto dos infernos, juntamente com seus respectivos donos –, mas eu me exponho até demais na rede. A única explicação que encontro, embora possa não ser tão plausível assim para muita gente, é o ar misterioso associado ao meu signo.

Esse é só o exemplo mais recente que me fez pensar sobre o assunto. Mas se considerarmos que das quatro características principais que todos os sites, de uma forma ou de outra, atribuem aos escorpianos (escorpinianos, escorpianinos, whatever) – mistério, uma ligação extrema com o sexo, vingança e ciúmes – eu tenho com absoluta certeza pelo menos duas (e uma terceira dependendo das circunstâncias), acho que posso dizer que pode haver algo de verdadeiro nessa história. Se é coincidência ou não, eu não sei. Mas é fato que lendo certas coisas parece que estou lendo uma descrição de mim mesma. Como o texto abaixo, que eu copiei do portal do Terra há algum tempo (as descrições mudaram, pelo que pude ver há umas semanas). De um modo geral eu me acho bem parecida com isso (a parte de se atormentar, então! Quem escreveu esse trecho poderia ter se inspirado em mim); só não sei se quem me conhece concorda. :)

Não se deixe levar pelo preconceito. Se você cruzar com um tipo honesto, corajoso, íntegro, intenso, magnético, profundo, reservado, perspicaz, enigmático e fiel até que a morte os separe, corra e agarre esta oportunidade, porque você terá topado com um escorpionino. Seu astrólogo diz que os escorpiões são traiçoeiros? Mude de astrólogo, porque o escorpião tem um senso de lealdade só comparável ao de um mafioso siciliano - se você mantiver sua palavra, ele manterá a dele até debaixo de uma saraivada de balas. Sua melhor amiga diz que os escorpiões são don-juans incuráveis? Troque de amiga, porque o escorpião, embora tremendamente ligado ao sexo, é tão seletivo que prefere uma vida monástica a transar com qualquer um. Você andou lendo que o escorpião é um dissimulado? Largue esse livro pelo último de Agatha Christie, pois a notória reserva escorpionina não tem nada a ver com hipocrisia.

Um escorpião nunca mente, só omite - e na maior parte das vezes está repleto de razões, porque sua fabulosa antena psíquica pescou que o interlocutor em questão não é lá muito confiável. Esta, talvez, seja a principal característica deste signo cujo mito mais esclarecedor é o de Lúcifer, o anjo decaído, não por noitadas em excesso, mas por uma lucidez além dos limites: o grande pecado do escorpião, como o do ex-anjo, é um orgulho excessivo. Excessivo, mas não descabido. O probleminha de Lúcifer era que enxergava certas razões ocultas por trás da cantoria dos querubins - um desejozinho secreto de promoção naquele arcanjo que emitia uma nota mais aguda. Por isso ele acabou expulso do Paraíso, onde críticas não são facilmente digeridas. A mesma complicada sina ocorre com os terrenos escorpioninos: como eles são providos de uma espécie de olhar de raio X, que detecta as piores intenções até nos melhores sorrisos, acabam se tornando ossos duros de roer.

Um escorpionino tem um faro incomparável para imposturas, o que lhe torna difícil a vida em sociedade. Isto o transforma, muitas vezes, num introspectivo de cenho franzido: sua capacidade de captar algo de podre no reino da Dinamarca não tem paralelo, em todo zodíaco e em qualquer estatística. Mas se o escorpião saca tudo, inclusive o pior de cada um, é porque tem uma sensibilidade que chega às raias do insuportável. O que o torna, também, muito solidário com o sofrimento alheio - nada de estranhar que Ghandi tenha ascendente em escorpião. Um escorpião nunca foge de problemas. Não fuja dele, portanto, a não ser que você queira passar o resto da vida bocejando entediado.

(...)

O escorpião tem uma incontrolável tendência a se atormentar, culpando-se por tudo que dá errado à sua volta, e num raio de milhares de quilômetros além, Bósnia, Croácia e Cambodja incluídos. Como ele jamais pega leve, nem quando está de férias, esta mania de carregar o mundo e seus males pode se tornar meio desconfortável para aqueles que o cercam, e pretendem apenas tomar mais uma bebidinha e prosear. Como, igualmente, um escorpião nunca se lamenta ou faz o papel de vítima - o que ocorre muito com os outros signos de água, peixes e câncer - é preciso se tornar um telepata para saber exatamente o que vai mal com seu escorpião de estimação.

Se for uma mera insatisfação com tudo, deixe estar - isto não tem cura. Se for uma depressão profunda, daquelas que o arrastam para a cama (e não para fazer o que ele tanto gosta), algumas providências são necessárias. Nada de terapias de apoio, porque um escorpião jamais vai acreditar que ele está OK e o mundo está OK. Uma terapia de choque é a mais recomendável: uma passagem só de ida para a Iugoslávia, para trabalhar num campo de refugiados, ou um passeio às seis da tarde por qualquer dos pontos das grandes capitais brasileiras onde se concentram os menores infratores vai ajudar a reconhecer que há outros infernos ainda piores que seu inferno interior. Um pouco menos arriscada é a técnica de auto-análise. Todo escorpião é um investigador nato, e isto explica porque eles dão excelentes psicanalistas.

Em contrapartida, dão péssimos pacientes, já que nunca vão superar completamente a sensação de que aquele camarada sentado na poltrona atrás do divã está calado porque, no fundo, sabe menos do que ele. O escorpião lucra mais se pagar uma faculdade de psicologia em vez de honorários de um psicólogo avulso. É claro que às vezes não se pode esperar cinco anos escolares para resolver uma crise. Mas crises, na verdade, não atrapalham este signo. Ao contrário, ele precisa delas para se reciclar periodicamente. E acaba sempre levantando, sacudindo a poeira e dando a volta por cima.

Textos de Marília Pacheco Fiorillo e Marylou Simonsen, publicados no livro Use e Abuse do seu Signo, editado pela LP&M

Sobre livros


Daí que me deu vontade, já há uns dias, de falar sobre os últimos livros que li. A preguiça me dominou até agora, mas, finalmente, consegui vencê-la. Vamos a eles então.

A princípio, pra quem quiser espairecer com uma leitura descompromissada e linguajar leve, recomendo a série Percy Jackson e os Olimpianos, de Rick Riordan. Nos cinco livros o autor trabalha com a mitologia grega, expondo seus heróis – semi-deuses contemporâneos – às situações mais inusitadas possíveis, com direito a monstros destruindo escolas em perseguição aos protagonistas, viagem ao Hades (o mundo dos mortos grego) e um Olimpo encarapitado no andar de número 600 do Empire State (não, não existe esse andar. Leiam os livros pra entender). Os semi-deuses do autor têm TDA e dislexia, o que fez rolar uma empatia total (eu, um ser totalmente TDA e, se não com dislexia, provavelmente com discalculia)... Mas eu sou uma purista com relação à mitologia grega – dentro do que se pode considerar “purismo” numa mitologia –, e, por conta disso, extremamente desconfiada com livros e filmes que se propõem a tratar do assunto. No que se refere à personificação dos seres mitológicos, não tenho do que reclamar; o autor sabe trabalhar bem com o tema, e tem um conhecimento acerca dos monstros que me surpreendeu. Mas eu, enquanto um ser “da colônia”, percebo algumas posições políticas, algumas expressões estadunidenses do tipo que mais detesto. Por exemplo, o centro da ação, o ápice de tudo, se dá em Nova Iorque, mais especificamente na ilha de Manhattan. Ora, o Olimpo fica em cima do Empire State não por acaso! A explicação pra isso, no livro, é que os deuses gregos se mudam para as civilizações mais avançadas de seu tempo... Aham, Cláudia, senta lá. Eu sinceramente já enchi o saco de filmes como “O dia depois de amanhã” e “Independence Day”, onde os americanos são os grandes heróis da humanidade ou a raça eleita para preservar a vida na Terra – por essas e outras nem me dei ao trabalho de assistir a “2012”. Esse “American Way Life” me incomodou nos livros, mas, ignorando-o, é uma leitura leve e divertida.
Ainda no ritmo da leitura leve, Cidade dos Ossos, de Cassandra Clare, também é uma boa pedida. Primeiro livro de (mais) uma série de fantasia chamada Os Instrumentos Mortais, sua história gira em torno dos nephilins, filhos de anjos e humanos que estão na Terra para manter a ordem, impedindo que seres “das sombras” aprontem das suas. São uma espécie de "caçadores de demônios". É um romance-aventura adolescente, mas tem umas ideias muito boas, as cenas de lutas são bem orquestradas (eu particularmente tenho uma extrema dificuldade pra escrever cenas de batalhas – embora as adore –, e admiro quem consegue passar a tensão do momento através das palavras), e a autora sabe trabalhar o enredo de forma a reservar algumas consideráveis surpresas, especialmente da metade para o fim. Assim como a série dos Olimpianos, uma leitura leve, pra se passar um final de semana descansando, sem precisar exigir muito do cérebro.

Agora, se você gosta de literatura fantástica mas prefere temas mais adultos e profundos, A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, é o que há. Escrito por um brasileiro (o que, por um lado eu lamento, já que isso indica que provavelmente jamais virará filme – o que pode ser bom, afinal, vide a merda que fizeram com Eragon –, e por outro me dá um orgulho tremendo, porque há tempos eu não lia algo tão bom de fantasia), lida com uma batalha de anjos, desde antes da queda de Lúcifer (o famoso diabo, pra quem não é ligado em mitologia cristã) até o pós-Armageddon, a batalha final entre o bem e o mal. O autor faz uma viagem histórica a diversas culturas, ressuscita desde a Babilônia da antiguidade, passa pelo Império Romano, China e Inglaterra medieval e por aí segue numa estrutura não linear, dando um leve toque de romance sem cair no pieguismo – ouso dizer que a personagem principal feminina é uma das melhores da literatura brasileira desde Capitu (e isso, vindo de mim, que idolatro Machado de Assis, é coisa pra caramba). A força, inteligência e personalidade dela são fascinantes. O autor consegue também deixar muito clara a extrema diferença entre as naturezas humana e angelical, mas, pra quem – como eu – tem uma ligação muito estreita com princípios cristãos, vai achar umas ideias levantadas por ele meio estranhas (pra dizer o mínimo). Aí é só relaxar e lembrar que é uma ficção e curtir o livro muitíssimo bem escrito e com um trabalho de pesquisa primoroso. Sem dúvida, um dos melhores livros que já li nos últimos anos. Mesmo pra quem não é muito fã de literatura fantástica, eu recomendo a leitura – depois me contem se gostaram ou não. ;)

Mulherada, Fora de Mim, de Martha Medeiros é algo assim tipo... De pensar “sou eu”. Martha Medeiros, como a maioria deve concordar, é uma cronista fabulosa, e nesse mais recente livro trata de uma dor que a grande maioria de nós conhece: a dor do fim, da separação, do relacionamento que não dá mais certo, mesmo a paixão ainda existindo em todo seu fulgor. O desespero, a luta diária que muitas vezes se aproxima daquela enfrentada por um drogado tentando se livrar de um vício (“um dia de cada vez”), a confusão de sentidos, a surpresa com o desenrolar dos fatos, as coisas estranhas que fazemos sem entender muito bem porque... Está tudo lá. E, homarada, recomendo a leitura. Acreditem, não é drama o que as mulheres fazem (ok, algumas EFETIVAMENTE fazem, mas isso não é regra). A natureza passional da maioria de nós, mesmo quando disfarçada por trás de uma imagem de frio desdém, é um turbilhão atormentador. Leiam. Vocês talvez entendam muitas atitudes que nós, mulheres, tomamos – afinal, elas agora são narradas, quase como num diário, por uma mulher.

E, livrinho que estou finalizando, só pra não deixar de mencionar minha atual paixão viciante (vide este post), Amantes e Rainhas – O Poder das Mulheres, de Benedetta Craveri. Mas, ok, antes de torcerem o nariz com “lá vem ela de novo falar de Luis XIV”, a coisa é mais ampla. O livro, na verdade, trata da influência de algumas mulheres que, à despeito do afastamento misógino destinado a elas no Antigo Regime francês, tiveram o poder de influenciar os rumos não só da França como, de certa forma, da Europa inteira. Estou me referindo a nomes como Catarina de Médicis, Margarida de Avois (a Rainha Margot), Ana da Áustria, Athénaïs de Montespan, Marquesa de Pompadour e Maria Antonieta, entre outras. É claro que, a princípio, meu interesse no livro recaiu sobre as mulheres que cercaram a vida do meu querido Rei Sol – Ana da Áustria, Maria Mancini, Maria Teresa da Áustria, Louise de La Vallière, Athénaïs de Montespan e Madame de Maintenon – e que, dada a longevidade do reinado de Luis XIV (72 anos, o mais longo do Antigo Regime europeu) e sua empolgação com o “sexo amável” (pra usar um termo da autora), obviamente ocupa uma boa parte do livro. Mas entender como as coisas se desenrolaram antes e depois dele, toda a configuração política, os homens e mulheres que, com suas atitudes, influenciaram uma época, está sendo deveras esclarecedor. Mais ainda, apesar de todo o preconceito com relação às mulheres que existiu durante todo esse período, constatar que mulheres inteligentes e fortes foram capazes de traçar seus próprios destinos – mesmo que algumas vezes tenha resultado em desastre depois. Isso meio que me esclarece porque o movimento feminista foi – e ainda é – tão forte na França. Eu sou suspeita, mas... Conheça o passado pra entender melhor o presente. ;)

Bom, é isso. Assim que terminar esse, vou tentar começar a ler Caim, de Saramago. Vejamos o que ele me reserva. :)

* Lendo tudo que eu posso enquanto posso... Depois que as aulas começarem, aí serão dois anos só lendo e escrevendo sobre judeus, fariseus, paleocristãos, Paulo...

De escritas e sentimentos – uma breve pausa


Acho que não posso me considerar uma escritora, na total acepção da palavra. Sei que escrevo. Faço isso com regularidade há alguns anos. Gosto e preciso da escrita, sempre foi minha válvula de escape. Se o que escrevo tem ou não qualidade pra que eu seja considerada uma “escritora” são outros quinhentos – e não vem ao caso, de todo modo.

Comecei este texto assim porque, quem me conhece há alguns anos, sabe que, se comparado aos meus outros blogs (inúmeros espalhados por aí) este tem sido surpreendentemente impessoal (já fui criticada por uma amiga por conta disso, inclusive; outra, por sua vez, acha melhor assim. Eu sigo conforme minhas necessidades do momento). Aliás, se é que eu consigo encontrar alguma característica nos meus textos é essa: pessoalidade. Em geral sou bastante intimista no que escrevo. Já escrevi de crônica a poesia (de versos brancos a sonetos), de crítica a romance, de textos transbordantes de sarcasmo e ironia até declarações de amor rasgadas. Tem tudo disso por aí, perdido na rede (e alguns guardados no micro, porque apaguei da WWW por nenhuma razão fixa, ou talvez por várias razões – simplesmente assim o quis). Já falei de política, religião, literatura, filmes, amor, paixão, saudade, elfos, História, dança e mais um milhão de outras coisas. Gosto de entremear meus textos com parênteses e hífens – eu preciso sempre explicar tudo muito bem explicado. É quase TOC.

Mas o fato é que, do meu último blog – o primeiro que efetivamente apaguei – pra este, uma mudança bastante considerável se deu, não só na escrita. Minha vida, meu pensamento, muitas coisas mudaram. E hoje, não sei exatamente porque, me deu vontade de escrever sobre isso. Sobre escrita. Sobre o que escrever significa pra mim, e porque escrevo. E porque parei de escrever sobre umas coisas pra escrever sobre outras.

Perdi as contas de quantas vezes mais de uma pessoa me perguntou “por que você escreve?” pelas mais variadas razões. A maioria que me perguntou isso achava que eu me expunha demais – não posso deixar de concordar. De certa forma era uma exposição, e eu nunca soube explicar direito o porquê disso. Uma espécie de voyeurismo invertido, talvez? Não sei. Mas eu sempre precisei expulsar coisas de dentro de mim escrevendo, e em geral elas vinham parar na internet. Poderia guardar num arquivo no micro; sim, poderia. Algumas coisas estão guardadas assim, inclusive. Mas há uma espécie de narcisismo em ser lida que só quem escreve pode realmente entender. Não tenho a intenção, nunca tive, de ser uma “blogueira conhecida”, ou algo do tipo. Basta alguns poucos leitores, mesmo pessoas que não sabem absolutamente nada de mim e chegaram aqui por acaso, numa busca qualquer na internet (alguns dos melhores blogs que já descobri e que sigo até hoje eu encontrei assim). Tanto que meus outros blogs não figuravam nos meus perfis em redes sociais, não eram tão fáceis de encontrar. Mas eles estavam lá, disponíveis a buscas fortuitas – e às vezes a buscas nem tão fortuitas assim, e em geral eu sabia exatamente diferenciar umas das outras. Não sei como acontece com os outros, mas palavras que são escritas e não são lidas, pra mim, soam como se nunca tivessem saído do pensamento. E isso é incômodo, porque eu escrevo justamente pra me “livrar” delas – é quase uma “penseira”, pra quem conhece o mundo de Harry Potter. Por outro lado, às vezes eu perco horas e horas relendo o que escrevi, seja recentemente, seja há alguns anos. É alguma espécie de auto-análise, sei lá.

Mas eu sou uma pessoa essencialmente apaixonada. Não lembro exatamente qual foi a última vez em que fiquei mais de um mês sem estar apaixonada por alguém. E, obviamente, meus blogs retratavam isso. Raivas, incompreensões, explosões passionais, saudades, enlevo – de tudo um pouco, registrado em palavras por aí. Menos de algum tempo pra cá.

Quando resolvi criar este blog, eu queria me desvencilhar disso. Queria trocar a intimidade pela análise da superfície (logo eu, que não suporto superficialidades!). Queria trocar a escrita de sentimentos por uma escrita quase “acadêmica”. E a passagem de um modo a outro foi tão radical que eu quase comecei a escrever aqui obedecendo às normas da ABNT. Mentira, não chegou a tanto. Mas a ideia era mais ou menos essa. Não que eu não estivesse apaixonada quando resolvi isso; talvez tenha sido exatamente o oposto. A questão talvez fosse estar experimentando um sentimento tal que já não cabia mais nas palavras. Coubera antes. E como. Escrevi praticamente um livro, muitos e muitos poemas e prosas, alguns textos que eu considero os melhores da minha vida (e, pelo meu grau desumano de exigência, são bem poucos) foram dedicados pra essa pessoa. É, deu um livro, eu tenho a coisa diagramada como tal. Mas chegou um momento de ruptura. Não o fim de um romance, não uma despedida, não uma traição, não o fim de um amor, nenhuma dessas situações folhetinescas (pelas quais já passei ao longo da vida). Simplesmente... Um momento de mudança. Ou talvez de entendimento. O que, no final das contas, não é necessariamente auto-excludente, pelo contrário. Eu diria que são complementares.

Ainda não sei exatamente qual a relação disso com o que eu escrevia antes. Ou como escrevia. Quando aconteceu, eu tinha algo em mente; hoje, vejo que vai bem mais além. Chamo de “ruptura” porque eu sinto assim. Durante algum tempo eu mantive dois blogs, um mais antigo e "pessoal", e este; há poucos meses essa ruptura se fez total, quando apaguei o blog anterior. Deletei totalmente, tirei da rede, disponibilizei o endereço. Me desfiz por completo – no mundo virtual, porque o backup dele está aqui guardado. Queria começar algo novo, precisava urgentemente mudar, precisava me desfazer de algo. Acho que, simbolicamente, queria me desfazer do sentimento de posse a que todos hoje em dia chamam de amor.

Eu tenho muito cuidado com essa palavra, esse verbo, o tal do amor. Raríssimas vezes meus amigos mais próximos me ouviram – ou leram – uma declaração assim vinda de mim. É um troço muito sério. E vai ficando mais sério com o passar do tempo, porque a maturidade vai me fazendo entender o que é de fato e o que eu um dia achei que fosse. É algo muito perigoso e pode machucar. Já confundi uma profunda amizade com amor romântico, amor homem-mulher, e o resultado foi que perdi ambos, o amigo e o namorado. Já disse a famosa frase “eu te amo”, no sentido romântico mesmo, basicamente pra quatro pessoas. Dessas, hoje vejo que só amei de verdade duas. E, mesmo essas duas, foram de formas tão distintas que eu chamaria os sentimentos de nomes diferentes, se meu vocabulário assim permitisse.

Posse. Talvez isso diferencie essas duas instâncias. É óbvio que quando você ama alguém quer ter a pessoa por perto. Quer tê-la ao seu lado. Mas isso é diferente de posse. Hoje eu entendo, quando vejo a primeira pessoa a quem eu realmente amei, que o que sentia na época era mais posse do que amor propriamente dito - eu era uma adolescente. Entendo isso hoje porque consigo ficar feliz por ele, por saber que conseguiu coisas que tanto almejava, como família, filho. Sinto saudades – não como homem, mas como um amigo muito querido, muito amado. Não, isso não é confundir amizade com amor; isso é o que sobra do amor, depois que o fogo da paixão se extingue, e você perde o sentimento de posse: amizade. É um querer-bem diferente, que nada tem de “erótico”, de físico, de passional.

Mas eu tenho aprendido um outro tipo de amor, o amor sem posse. Wow, não é nada fácil, viu. Até porque o raio da paixão não existe sem o sentimento de posse, e controlar isso é algo muito complicado. Mas não há nada melhor pra arrefecer uma paixão do que tempo e distância. Certo? Não necessariamente. Creiam-me, não necessariamente MESMO. Quando há alguma coisa maior por trás, a paixão pode até arrefecer, diminuir até virar uma brasinha tão pequena que você jura que já tá extinta, nem a sente lá. Mas experimenta diminuir a distância, tenta driblar o tempo. Nero ficaria com inveja, porque o incêndio de Roma perde. Ou seja, a questão não é a paixão. Aliás, é ela que imprime o sentimento de posse a que as pessoas erroneamente chamam de amor. Eu tenho entendido que eu posso amar alguém mesmo sem ter esse alguém comigo (não que eu não QUEIRA tê-lo, querer eu quero, mas nem tudo é como a gente quer; o lance é que eu não PRECISO tê-lo pra continuar amando-o). Mesmo se passar anos sem vê-lo. Mesmo que eu siga uma vida muito diferente da dele, diametralmente oposta, com outra pessoa, uma outra história. É pensar que, caso a vida nos jogue cada um num lado diferente do mundo, o dia que nos reencontrarmos tenho certeza de que vou pensar (e dizer): “Eu sei que teríamos sido felizes juntos. Mas, mesmo assim, ver você me faz feliz”.

Tendo entendido isso – embora muitas vezes a paixão ainda turve o entendimento e eu esqueça tudo por algum tempo –, acho que se deu a mudança. Uma mudança de dentro pra fora. Eu não preciso mais extrair os excessos desse sentimento, pra não ser sufocada por ele, como fazia antes. Agora já lido melhor com o silêncio. As palavras antes não davam conta; agora elas já quase não se fazem mais necessárias. Não escritas, pelo menos. Meu momento é de silêncio, porque ainda acontecem embates sérios e ferocíssimos dentro de mim pra aceitar essa ideia de amor sem posse. Preciso absorver tudo isso, porque não é algo fácil – talvez sequer compreensível pra alguém além de mim.

Por isso, voltamos à nossa programação normal.

Et vice Versailles!

Eu tenho uns vícios de temporada. Assim: em geral eu fico alguns meses (às vezes anos) lendo, ouvindo, pesquisando na internet tudo e qualquer coisa relacionada ao tema no qual estou viciada no momento – e a situação é tensa, porque eu passo realmente horas e horas e horas revendo, relendo, reouvindo as mesmas coisas. Aí, um belo dia, eu resolvo pesquisar outra coisa. Pronto, meu vício mudou. Ou eu simplesmente enjoei. Ou resolvi ressuscitar antigos vícios. A coisa só não é séria de verdade porque eu ainda não tive condições financeiras suficientes pra alimentar meus vícios como eu gostaria. Ou alguém duvida que, assim que eu puder, vou ter várias coleções de bonequinhos, aparadores de livro, pendrive (eu vi um do Yoda genial!) e o que mais eu puder de Senhor dos Anéis, Star Wars, Cavaleiros do Zodíaco (cá entre nós, a Saori é um porre) ou Superman? Hello Kitty é o cacete, eu sou uma elfa Jedi, rapá. Direto da Terra-Média para Coruscant (passando por Krypton).

Pois é, meus vícios são tão estranhos (pra uma balzaquiana, pelo menos) quanto a forma como eles surgem. Quando lançaram o primeiro filme do Senhor dos Anéis eu não sosseguei enquanto não li a trilogia (e O Hobbit, e ainda preciso terminar o Silmarillion). Entrei numas três listas de discussão sobre o assunto (“os balrogs de Tolkien tinham ou não asas?” parecia ser o novo grande questionamento filosófico, em substituição ao “de onde vim, para onde vou?”), me cadastrei em sites como Valinor e Ardalambion, baixei os trailers dos filmes, todas as fontes de Quenya e Sindarin que encontrei (as Tengwar), baixei a versão estendida dos três filmes (com internet discada!!!!), comecei a estudar o Alto-élfico e me “apaixonei” (dentro dos limites de uma neo-adulta, claro – na época eu tinha uns 20 e pouquinho) pelo Legolas do filme – não o Orlando Bloom, dane-se o Orlando Bloom, eu queria o Legolas mesmo, o personagem. Não, eu não tinha muito o que fazer na época, como vocês devem perceber. Não é um vício lá muito útil, mas posso discutir os hábitos dos elfos com qualquer um.

De arrasto com o vício Tolkien / Terra-média, veio o vício RPG. Não que eu já não tivesse travado um certo contato com os mundos fantásticos antes (tenho cartas de Magic guardadas desde a adolescência – nenhum deck completo, infelizmente), mas o D&D, Tormenta, Gurps e demais mundos de fantasia medieval abriram esse panorama consideravelmente. Confesso que ainda não joguei RPG de mesa (falha que estou tentando corrigir), mas já joguei bastante online, tenho uma pasta no HD repleta de imagens de personagens – eu construo os personagens a partir das imagens deles –, todos os livros de D&D baixados e uma história meio escrita de quase duzentas páginas com elfos, humanos, halflings, etc. Bom, nessa época eu já tinha bem mais o que fazer, mas né? Vício é vício.

Isso sem contar meus vícios em Superman (“Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman” em particular), Star Wars, Garfield, e por aí vai. Alguns desses vícios são úteis; por exemplo, no auge da segunda (e mais recente) fase do vício L&C eu comecei a aprender inglês na cabeçada, porque todos os sites com bons conteúdos a respeito da série são em inglês. Além disso, de tanto assistir aos episódios de L&C minha compreensão do idioma aumentou consideravelmente (eu sei várias falas de cabeça, realizem). Alguns eu até assisto com legendas em inglês, porque eu já sei as falas em português mesmo... E é pra falar em outro vício com algo de útil que eu comecei a escrever isso aqui. Quero falar sobre um musical e um livro.

Minha paixão absoluta da temporada, há pelo menos um ano, tem sido Luis XIV. É claro que eu já ouvira falar dele antes disso, afinal, eu sou formada em dança, tive aula de História da Dança e, ora bolas, estou me especializando nisso. Então é claro que eu conhecia algo sobre o Rei Sol e sua contribuição essencial para a profissionalização da dança. Mas a questão não é essa. Aliás, se dependesse da disciplina que eu tive na faculdade, com o professor que eu tive, eu tinha tudo pra ODIAR Luis XIV e o período conhecido como ballet de cour (balé da corte). Enfim, mas deixando os “traumas” pra lá, tudo começou quando uma amiga precisava fazer prova de canto no curso de teatro, e começou a procurar uma música em outro idioma. Ela recém tinha voltado de um intercâmbio na França, e resolveu escolher uma música de um musical de lá. A música era Mon Essentiel, e o musical, Le Roi Soleil. Pronto. As pessoas que me cercam não sabiam, mas iam começar a me aturar enchendo o saco à francesa (aliás, acho que essa minha amiga se arrepende até hoje por ter me apresentado a música). Esse é outro bom exemplo de vício útil que toma minha vida; aprendi muito mais francês revendo o musical, decorando as músicas e lendo sobre Luis XIV do que em seis meses de curso. Pra quem se interessar em baixar o musical, tenho as legendas – cheias de erros que estou corrigindo, diga-se de passagem (porque sou abusada, ho-ho-ho. O que eu disse sobre o vício útil? Já me meto a besta de corrigir legendas com o francês como idioma falado).

La troupe de la comédie musical
(Lysa Ansaldi comme Athénaïs de Montespan ; Christophe Maé comme Phillipe, Le Monsieur, frére du Roi ; Anne Laure Girbal comme Marie Mancini ; Emmanuel Moire comme Le Roi Soleil ; Cathialine Andria comme Françoise de Maintenon ; Merwan Rim comme Duc Beaufort e Victoria Petrosillo comme Isabelle, la fille du peuple).

Emmanuel Moire, Le Roi Louis XIV.
Querido Papai do Céu, será que rola um clone (hetero) dessa criatura aí de cima pra mim? Juro que não O perturbo mais pelo resto da minha vidinha... Que, com um homem desse, pode até ser curta que eu nem ligo...


É claro que o musical, embora inspirado em fatos históricos, tem muito de fantasia. Ele é basicamente calcado sobre três dos principais amores do Rei Sol: Maria Mancini, Athénaïs de Montespan e Françoise de Maintenon, e o apresenta como um homem romântico e apaixonado – coisa que não era exatamente do feitio do notoriamente controlado (e controlador) Luis histórico. Embora ele fosse sim dado a paixões avassaladoras, com uma libido incansável pra lá de famosa (Luis foi pródigo em bastardos), não se pode descrevê-lo exatamente como um romântico. Maria Mancini que o diga. Mas enfim, falemos do musical.

(Para uma descrição detalhada do musical, inclusive com explicações históricas pra certas menções feitas no roteiro que, de outra forma, passariam despercebidas, clique AQUI. O texto ficou gigantesco e nem todo mundo tem a fixação histórica nas coisas que eu tenho – e menos gente ainda, suponho, tem a minha fixação por Luizinho)

De uma maneira geral, o espetáculo é excelente. Os cenários são esplendorosos, o figurino extremamente apurado, nos mínimos detalhes, e a atuação dos atores / cantores não deixa nada a desejar. Emmanuel Moire consegue dar o tom certo de galanteria necessário ao personagem; embora sua beleza tenha sido muito citada à época, para os padrões modernos Luis XIV não era exatamente um homem bonito (ao contrário de seu intérprete, diga-se). Na verdade acredito que ele tenha sido o tipo de homem cujo charme e presença eram tão marcantes que o cercavam de uma aura de beleza que transcendia o físico. Quem é mulher sabe do que eu estou falando.


Luis, por volta dos 20 anos, segundo os escritores da época, “no auge de sua beleza”.

Mas, independente de beleza, se havia algo na corte da França do século XVII que poderia superar qualquer ausência de atrativos físicos era a galanteria – e definitivamente Luis soube ser galante, uma qualidade que Manu conseguiu aplicar muitíssimo bem ao personagem. As representações dos outros também foram muito boas, mas eu faria uma ressalva; acho que faltou um pouco de sensualidade à Montespan. Um dos apelidos dados a ela entre os boêmios era “a Torrente”; ela era uma explosão de sensualidade, algo assim tipo uma Angelina Jolie do século XVII. Enfim, fala-se tanto dos musicais da Broadway, mas definitivamente os musicais franceses (ou francófonos de um modo geral, já que outro musical maravilhoso, Notre Dame de Paris, salvo engano, é canadense) não deixam nada a desejar. É um espetáculo que vale a pena ver – mesmo que seja em vídeo.

Mas ainda falando de Luis XIV, um livro interessantíssimo que recomendo a quem gostaria de saber mais sobre ele é “O Amor e Luis XIV – As Mulheres na Vida do Rei Sol”, de Antonia Fraser, de onde tirei a maioria das informações históricas que usei na descrição detalhada sobre o musical. A autora faz um levantamento minucioso da corte francesa desde antes do nascimento de Luis até os últimos dias do soberano, e não trata apenas de suas amantes, mas de todas as mulheres que foram importantes para o rei, como sua mãe e principal conselheira durante anos, suas filhas, suas cunhadas e a esposa de seu neto, uma criança que foi muito amada por ele. É uma narrativa detalhada e leve, fácil de ler e difícil de parar. Mais do que o Rei Luis, temos um retrato de como era o Homem Luis. Recomendo vivamente.

Por fim, pra terminar este post enorme sobre meus vícios e, em especial, sobre meu vício atual, apelo a Liselotte, segunda cunhada de Luis XIV, e deixo que ela fale sobre o que me fascina na vida do Rei Sol e sua época:

“Acredito que as histórias que serão escritas sobre esta corte depois que todos desaparecermos serão melhores e mais interessantes que qualquer romance... e temo que as gerações futuras não sejam capazes de acreditar nelas e pensem que não passam de contos de fadas.”

* O título deste post é o nome de uma das músicas do Le Roi Soleil.

Então é natal, e o que você fez?


Jinglle Bell, hohoho e blá blá blá. É véspera de natal e as pessoas estão desde cedo na cozinha, preparando aquela ceia bem gordurosa, com comidas pesadas, enquanto aquele tio mala está tentando esconder das crianças a fantasia QUENTE de papai noel, mesmo sabendo que vai ter que tomar uns gorós antes de vestir pra poder aguentar o tanto que o diacho da barba pinica. Tudo altamente recomendável ao nosso clima tropical. Na boa, é difícil levar a sério uma época em que um dos maiores símbolos é um velho todo encapotado com roupas de lã que entra pela chaminé das casas pra dar presentes. COMO ter chaminé no Rio de Janeiro, que nos dias mais frios chega no máximo aí a uns 16°C? Aqui se chove nego já coloca casaco!!! Bem. Não, eu não ligo muito pra natal. Não sinto o “espírito natalino” e talz. E vou dar algumas razões pra isso.

Eu gosto de tradições, e respeito a data como tal. Mas, como diria Lois Lane num dos episódios da série Lois & Clark, pra mim natal é um dia legal, assim tipo o dia da árvore. Porque, né? Vamos combinar que, considerando-se Jesus como uma figura histórica, e os evangelhos como uma narrativa mesmo que só aproximadamente histórica (seus incrédulos!), dezembro é inverno no hemisfério norte (rá, vocês sabiam que Jesus nasceu no hemisfério norte?), e como os evangelhos podem narrar a presença de pastores no nascimento do guri em pleno inverno? Que diabos (ops!) aquelas ovelhas e vacas (oi?) estavam fazendo lá no inverno? Deixando claro, a Palestina não é Rio de Janeiro, onde não existe um frio decente. Em Israel NEVA. Bem. Minha fé tem suas limitações, como podem notar. Além disso, dia 25 de dezembro (respeitadas as diferenças de calendário) era uma data comemorativa pagã famosa em Roma (as “saturnálias”, se não me engano). Daí o motivo de resolverem, lá nos primórdios do cristianismo, fazer dessa data o dia do nascimento de Jesus. Ficava mais fácil pro povo assimilar, sabem como é. Ah, a árvore enfeitada? Coisa dos celtas, que penduravam frutas e doces nas árvores das florestas durante algumas festas. Pra quem gosta de sincretismo, o natal é a data ideal (a História destrói certas imagens que as pessoas têm a respeito de certas coisas, cuidado com ela).

Mas é claro que nada disso me desanima a festejar. Eu gosto da páscoa, por exemplo, mesmo com coelhos que botam ovo de chocolate (é ainda mais inverossímil que o velho vestido de lã descendo por uma chaminé no Rio de Janeiro). Mas, sobre o natal, tirando o fato de que a data aqui em terras tupiniquins cai na estação do ano em que meu mau humor ultrapassa todos os níveis considerados saudáveis pra convivência em sociedade, uma das coisas que me irritam é que aparentemente do nada a população se reproduz por geração espontânea. Já notaram a QUANTIDADE de gente circulando na rua nessa época do ano? É a época do consumismo desenfreado. Todos os canais, todas as vitrines, todas as esquinas gritam “COMPRE, COMPRE, COMPRE”. Sei lá, isso não me parece muito cristão, já que Jesus (aquele mesmo que dizem que nasceu no inverno cercado por vacas e ovelhas) era um carpinteiro que, segundo ele mesmo, não tinha nem onde repousar a cabeça. Contradições das tradições na era do capitalismo. Well.

Aliás, falando em canais, ô época do ano INSUPORTÁVEL pra se ligar a TV. Eu já não sou muito fã desse eletrodoméstico, mas na semana do natal a coisa fica inviável. Todos os filmes falam de natal (é claro, cheio de muita neve – eu tento com isso condicionar meu cérebro a pensar que está frio, mas o corpo não acredita), todos os programas dão receitas de peru e bichos com nomes esquisitos que ninguém nunca viu vivo (bacalhau, por exemplo; alguém já viu um bacalhau vivo?) como chester, tender, pernil (dizem que esse último é um pedaço de porco... Não sei porque não faço questão de conferir, já que não como porco. Deve ser meu lado judeu se manifestando. Aliás, não é interessante comemorarem com porco o nascimento de um judeu?), sem contar as “celebridades” fazendo “caridade” em frente às câmeras, graças ao “espírito de natal”... No resto do ano os pobres que se danem, basicamente. E a música da Simone, MEUDEUSDOCÉU, a música da Simone tocando a cada dois minutos e meio num raio de cinco quilômetros em qualquer lugar que você vá – “então é natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez” e blá, blá. Desde meus 13 ou 14 anos eu ouço essa música tocando exaustivamente TODO final de ano! Esse povo não enjoa não?! Haja espírito de natal! Aliás, eu tenho a impressão de que você é quase OBRIGADO a sentir o “espírito natalino”, ou as pessoas te olham com cara de pena ou de estranhamento. “Como assim você não fica feliz no natal?” Muita forçada de barra pro meu gosto, sorry.

Mas eu não “odeio” o natal, como pode parecer pelas minhas reclamações (relevem, estamos no verão de 40°>C do Rio de Janeiro e isso é tudo que passa pela minha cabeça nessa época do ano). Rabanada e chocotone, por exemplo, são coisas MUITO legais no natal. Não consigo lembrar de outras, mas deve ter.

A família, ah, a família. Momento em que aqueles primos que você não vê desde o ano passado aparecem de para-quedas na tua casa e vão direto pra geladeira – e ainda reclamam que a cerveja não tá gelada. Quando teu cunhado folgado, que tá te devendo uma nota, pergunta o que você comprou de presente pra ele. Quando sua mãe resolve reclamar que teu marido é um inútil, não entende porque você se casou com ele, diz que você escolheu muito mal e na verdade tinha que ter se casado com o IRMÃO dele. Ou então aquela tia velha pergunta, se você é solteira, porque até agora não arrumou um marido. “Olha, você já tá passando da idade de casar, viu?” (no meu caso, inclusive, pelos padrões dessa gente, já passei). Aham. Minhas respostas pra esse tipo de comentário normalmente não são muito coerentes com o “espírito de natal”.

Enfim, pra você que adora essa época, espera ansiosa (o) pra abrir os presentes, se empanturrar com todas aquelas comidas gordurosas, abraçar aquele parente que durante o resto do ano você só fala mal, e desejar que “Jesus nasça em seu coração” (oi?), aproveite bastante. De minha parte, vou ficar aqui relendo O Senhor dos Anéis – As Duas Torres e comendo minha pizza quatro queijos, contando os minutos pra que o Réveillon chegue logo – essa sim, uma festa que eu acho digna de ser comemorada. Ok que a noção de tempo é algo inventada pelo homem e que dia primeiro de janeiro de qualquer ano é exatamente igual ao dia trinta e um de dezembro do ano anterior... Mas a gente sempre espera que algo diferente aconteça. Então, feliz natal pra quem curte, assista a um filme ou leia um livro quem não curte, e que venha o ano novo!

P.s.: Uma coisa que eu não entendo é: por que os ateus e os Flinstones comemoram o natal?

O que você quer ser quando crescer?


Relendo um texto que escrevi há cerca de dois anos, me dei conta de que nunca soube efetivamente o que fazer da vida. Acho lindo aquelas pessoas que, desde criança, mostram um talento inato pra determinada profissão. Sempre estive bem longe disso, e, arrumando minhas bugigangas esta semana (diários, agendas, recados de amigos, etc – as coisas que uma mudança nos força a fazer), confirmei isso sem sombra de dúvidas.

A lembrança mais antiga que tenho é de alguém me perguntando, numa padaria, armazém ou papelaria qualquer onde fui com algum primo, numa época em que o balcão me parecia algo assim como a Muralha da China (que eu não fazia idéia do que era), o que eu queria ser quando crescesse; minha pronta resposta foi: “bailarina” (oi?). Desde aquela época – que eu não lembro muito bem quando foi – eu já quis ser de engenheira elétrica a psicóloga, passando por jornalista e anatomista, entre outras coisas. Acabei me formando Bacharel em Dança (oi??), mas isso é só um detalhe. Acreditem, só um detalhe MESMO.

Pra começar, eu odiava o colégio onde cursei o ensino fundamental (que na época ainda se chamava primeiro grau). Queria sair de lá de qualquer maneira. Passou brevemente pela minha cabeça fazer ensino técnico em processamento de dados mas, como não havia essa opção no meu município, fui convencida a abandonar o projeto. Minha mãe conseguiu uma vaga num outro colégio municipal pra “Formação Geral” (ainda existe isso?) no ensino médio, e, por causa do meu primeiro namoradinho, eu cismei que queria ir pra uma escola técnica, não pra escola onde minha mãe conseguiu vaga. Como eu sou pior do que mula empacada quando cismo com alguma coisa, bati o pé que faria o concurso pra tal escola técnica de qualquer maneira. Minha mãe ameaçou: se eu não passasse, ficaria no mesmo colégio e ainda faria “Formação de Professores” (a terceira opção da época pra quem fosse cursar ensino médio, além da tal “Formação Geral” e do ensino técnico). Pânico, horror, pavor!!! Eu, professora???? Never! Guardem esta informação para verificações futuras.

Quando fui fazer a inscrição do concurso, a menina me perguntou pra qual curso eu iria. Naquela escola eram três: Edificações, Eletrotécnica e Administração. Como eu nunca tinha ouvido falar nem fazia a menor idéia do que eram os dois primeiros, minha opção foi na lógica: “Bota Administração aí”. Resultado: Passei.

Meu namoradinho era de Eletrotécnica e, consequentemente, eu andava com muitos alunos do curso. A paixão por ele não durou muito tempo, mas em compensação a paixão pela ideia de fazer plantas naquelas mesas de desenho iradas, usar papel vegetal, régua T, aranha e escalímetro assumiu o lugar. Vivia enfiada nas salas de desenho do colégio, passeando pra cima e pra baixo com o material emprestado pelos meus amigos e desenhando plantas de casas bizarras. Aí eu cismei que seria engenheira elétrica (é claro que o fato de ter dificuldades pra fazer uma conta simples de somar não vinha ao caso).

Foi mais ou menos ali pelo ano de 95, 96 que eu me apaixonei por uma série de televisão: “Lois & Clark, as novas aventuras do Superman”. Esqueci as plantas, os desenhos, minha ambição de ser engenheira elétrica e só conseguia pensar numa coisa: Jornalismo! Eu era a própria Lois encarnada!!! Sempre li e escrevi compulsivamente, a coisa parecia mais adequada do que o mundo de números da Engenharia, qualquer que fosse ela. Administração, who?

Aí, lá pro final do curso, eu comecei a ter aulas de Psicologia. A série já tinha descambado pro limbo televisivo, eu não tinha internet pra alimentar o vício, e a Lois que existia em mim foi cuidadosamente engavetada pra dar lugar a uma pseudo-psicóloga, que achava que todas as atitudes humanas poderiam ser explicadas cientificamente (eu e minha necessidade de explicar tudo). Essa acabou não durando muito. Quando me formei, consegui um estágio – surpresa! – na área de Administração, é óbvio.

Uma outra grande paixão da minha vida foi o militarismo. Sempre fui apaixonada por fardas, e sonhava vestir uma. Depois do estágio eu arrumei um emprego e, cerca de um ano depois, uma colega de trabalho falou sobre um curso preparatório pras escolas militares. E lá fui eu. Sargento Especialista da Aeronáutica (apenas uma estação antes do meu objetivo, que era passar pra Marinha como tenente). A área? Administração, óóóbvio, fazer o que. Mais ou menos nessa época os computadores voltaram a me tentar – nunca deixaram totalmente, pra ser sincera –, vivia enfiada no setor de informática do meu trabalho, me metia a mexer em micros que davam pane, escarafuchar impressoras matriciais e tive um rápido namorico com um dos garotos de lá. Mas nada mais importava fora Guaratinguetá e a Escola de Especialistas. Bem, essa é uma fase triste da minha vida; não passei.

Como a carreira militar tinha limitações de idade, em determinado momento eu desisti de tentar – porque, né, já deu – e resolvi fazer vestibular. Por uma epifania não muito explicável racionalmente até hoje, decidi pela faculdade de Dança – que eu sequer sabia existir, até o momento que resolvi procurar. Fui pro pré-vestibular (porque, depois de três anos de pré-militar eu poderia saber muita coisa sobre Administração, Contabilidade e Estatística, mas definitivamente não fazia idéia do que era mitose e meiose, não lembrava muito bem quais eram os estados brasileiros e minha capacidade de ir além dos cálculos essenciais da matemática financeira – que nunca foi grande coisa – estava seriamente prejudicada), com a cabeça em Dança na UFRJ e, só pra não perder a viagem, História na UERJ. Guardem também este detalhe: História.

Um belo dia, quando não havia nada pra fazer no trabalho, resolvi escrever um texto sobre a guerra do Iraque; despretensiosamente, só porque eu sempre tive uma necessidade absurda de dar pitaco em qualquer coisa. Em época de vestibular, claro que pensei em levar meu textinho pra algum professor avaliar – afinal, vestibular tem redação, né?! Ou pelo menos na minha época tinha. Não podendo segurar a ansiedade até a aula de redação – que seria só na sexta-feira, e ainda era começo da semana – mostrei o texto pro professor de Literatura. Ele perguntou se podia levar o texto e falar comigo depois. Eu sempre saía do curso correndo pro trabalho, não teria tempo depois da aula mesmo, então não vi problemas quanto a isso. Eis que a criatura me aparece na semana seguinte, com uma pilha de jornais na mão (um jornal local), e começa a distribuir pela sala. Eu não sabia, mas o ser era editor do jornal do município, e publicou meu texto. Em cerca de 24 horas eu me transformei de uma ilustre desconhecida em sensação do curso. E quem me conhece sabe o quanto eu a-do-ro holofotes [ironia detected]. Quando a professora de redação resolveu emitir seu parecer sobre o assunto – LENDO o texto em voz alta, na aula seguinte – eu lentamente fui escorregando pela cadeira e, no final, já estava quase debaixo da mesa (e, não, isso não é um exagero). Essa foi minha veia Lois Lane se manifestando novamente; o curso inteiro jurava que eu faria Jornalismo. A meia dúzia que me perguntou reagiu com cara de interrogação ao saber que eu faria Dança. “Existe isso?”

Existe. Daí eu fui parar num curso desconhecido, com matérias com nomes esquisitos tipo “Fundamentos dos Parâmetros da Dança – Ritmo” e “Progressões do Movimento Segmentar”, e descobri que teria que estudar coisas como Anatomia, Bioquímica, Fisiologia, Cinesiologia... Peraí; eu disse Anatomia? Eu me dei conta na semana da matrícula de que teria 90 (eu disse NOVENTA) horas de aulas PRÁTICAS de Anatomia. Quer dizer, como assim? Eu vou ter que mexer em cadáver?! Por pelo menos uns dois dias eu considerei seriamente desistir da vaga numa universidade pública. Aliás, minhas primeiras aulas de Anatomia seriam hilárias (pra qualquer um) se não fossem apavorantes (pra mim). Eu entrava no laboratório mais ou menos como os protagonistas de filmes de terror abrem a porta pra constatar que barulho foi aquele no meio da noite. Eu jurava que daria de cara com um zumbi atrás de alguma porta a qualquer momento. Essas foram só as primeiras aulas. O resultado foi que, no semestre seguinte, eu já era monitora da disciplina e consequentemente uma das responsáveis por dar as aulas práticas – inclusive montando e corrigindo as provas com aqueles mesmos cadáveres (ou pedaços deles) que tanto me metiam medo. Professora, eu? Ehr...

Nessa época eu alimentei por algum tempo o delírio de pedir reingresso pra Medicina ou algo do tipo, só pra poder ser anatomista. É óbvio que isso não sobreviveu à(s - duas) reprovação (ões) em Bioquímica.

No quarto período eu entrei em crise (a primeira – quem nunca passou por crises durante a faculdade?) e cismei que ia trancar a matrícula e mudar pra História (História, lembram? Tem mais). Alguns amigos me impediram e eu perseverei aos trancos e barrancos até o (recente) fim. O resultado parcial dessa salada toda é o seguinte: no fim da faculdade a tentação das Biomédicas voltou, com minha breve intenção de tentar um mestrado pra Neurofisiologia (cuma?); mas como minha paixão nesse caso exigiria outros talentos que eu definitivamente não possuo (Química pra mim se resume a um monte de C ligados por tracinhos e que não fazem sentido algum), decidi mesmo pelo mestrado em História (olhaí). Obviamente, com uma formação em Dança, seria meio lógico pensar que meu projeto fala acerca de algum grande nome da Dança Moderna, ou, recuando muito no tempo, talvez discuta algum aspecto do Balé da Corte. Bom. Com esse retrospecto, eu só digo uma coisa: Meu tema é sobre o corpo como agente religioso na Palestina do I século.

É melhor nem tentar entender. Como diz uma das minhas comunidades no Orkut, “O que eu quero ser não existe”.

O que é isso, companheiro?


Temos uma nova presidente, a primeira mulher na História do Brasil a exercer o cargo máximo do poder executivo e blá, blá, blá, wiskas sachê. Votei na Dilma no segundo turno, sim, mas admito que não sei se posso confiar nela. O que sei é que não confio de forma alguma no Serra – ou melhor, na forma de fazer política do PSDB que ele representa. Como li por aí durante a campanha, a Dilma não era a candidata dos nossos sonhos, mas definitivamente o Serra era o candidato dos nossos mais terríveis pesadelos.

A questão me parece mais ou menos simples; eu, enquanto classe média baixa, vi – e vivi – melhoras significativas durante o governo petista. Lembro-me da campanha chantagista do PSDB com a Regina Duarte, em cadeia nacional, dizendo “eu tenho medo”. Olha, depois de oito anos (e agora com mais quatro confirmados), se ela ainda não saiu do país ou tá com uma terrível síndrome do pânico, já deve ter encontrado um bom psicólogo / psiquiatra e tá tomando remédios de tarja preta pra vencer esse medo. Porque, né? O povo parece estar gostando.

O PT já não é de esquerda há algum tempo, é preciso que se diga. No máximo, no máximo, eu diria que ele é um centro-moderado. Ainda tem enfoque nas políticas assistencialistas, mas sem as neuroses de outros partidos (pelamordedeus, o que é o slogan “contra burguês, vote 16” em pleno século XXI?!); dá um certo apoio às elites, mas sem a babação da direita, muitíssimo bem representada pelo PhD Fernando Henrique Cardoso e pelo até ontem candidato José Serra. Na verdade o governo de Lula foi populista – uma espécie de neo-varguismo modernizado (amigos historiadores, não me acusem de anacronismo, estou apenas divagando) –, mas o que mais me chamou a atenção na candidatura do Lula em 2010 (vá, quem se candidatou foi o Lula, a Dilma foi só fachada) foi o apoio massivo da elite intelectual do país. Professores universitários e até reitores fazendo manifestos públicos de apoio ao governo petista. Não sou uma grande conhecedora da História política do meu país (confesso, com certa vergonha), mas isso me parece inédito. Um governo populista, por princípio, em geral desagrada às elites – todas elas, inclusive a intelectual. Dessa vez houve uma mudança. Não consigo vislumbrar muito bem onde, ou por que; talvez o futuro me responda.

De minha parte, não tenho do que reclamar do governo petista. Escândalos? Ora, o dia que me apresentarem um único governo que tenha cumprido seu mandato sem escândalos a perder de vista, eu começo a respeitar esse argumento. Até lá, pra mim sempre vai soar como o seis falando do meia dúzia. E eu não respeito esse tipo de coisa. O que eu vi, aqui da Baixada Fluminense, lugar com maioria pobre, com pai motorista aposentado e mãe dona de casa, ambos sem o ensino fundamental completo, e eu tendo que ralar MUITO pra trabalhar e fazer faculdade, foi um certo aumento de padrão de vida ao meu redor. Admito, eu amaldiçôo o inventor do automóvel quando preciso ficar duas, três horas pra fazer um percurso que, há seis anos, eu fazia às vezes em menos de uma hora. Mas, racionalmente falando, existem mais automóveis na rua, por isso tanto engarrafamento. De onde saiu o dinheiro pra tanta gente comprar carro? E eu percorro as grandes vias de acesso da periferia para o Centro do Rio (Dutra, Av. Brasil); ou seja, eu vou do menor para o maior poder aquisitivo (em teoria – não incluo aqui as favelas – ops! Comunidades, pra ser politicamente correta).

Além do mais, eu presenciei – e ainda presencio – as mudanças na UFRJ. Da era PSDB por lá, eu só ouço falar; campus abandonado à noite, grade de docentes abaixo do mínimo possível pra se trabalhar (e aqui eu falo do meu curso, Dança), com os professores tendo que se desdobrar em várias disciplinas porque não abriam concursos, greves anuais e, bolsa de pesquisa? Onde? O que é isso? Afinal, pra que um curso de artes vai precisar pesquisar, não é mesmo? Como dizem por aí, é só “dançar”.

Dos oito anos do governo petista, eu estou por lá desde 2004 – ou seja, seis anos (meu curso tem duração de cinco, e, bem, como eu disse, tive que trabalhar durante a faculdade...). O que eu vejo hoje é um campus em obra, iluminado, com segurança da universidade e PM’s montados fazendo ronda à noite. Perigoso? Olha, se me disserem um lugar da cidade do Rio que não seja perigoso à noite, eu posso até concordar. Nunca fui assaltada lá; em compensação já tive uma metralhadora apontada pra minha cabeça em plena Av. Pres. Dutra, voltando de uma festa. Conheço gente que já sofreu sequestro relâmpago no campus; mas também sei de bandido que invadiu o prédio do IFCS, em pleno Centro do Rio, à luz do dia. E aí? Além disso, não sei nos outros cursos, mas na Dança nós estamos com concursos pra docentes há algum tempo, e ainda há muitas vagas a serem preenchidas, finalmente. Temos inúmeras bolsas de pesquisa, e, com isso, a produção está crescendo a olhos vistos – o curso já está quase engolindo o de Ed. Física, com o qual divide o prédio. Prova de que, com o devido incentivo, um curso de arte pode fazer muita coisa.

Parando de olhar pro meu próprio umbigo (bom, eu tento, dentro do possível, só falar daquilo que conheço pra tentar falar o menos possível de besteiras), passamos muito bem, obrigada, por uma crise que abalou os grandes poderosos do mundo. Das duas uma; ou o brasileiro já tá TÃO acostumado com crises que nem percebeu essa, ou então realmente ela só chegou aqui como uma marolinha. O nível de desemprego no país está batendo recordes – de baixa, é importante que se diga –, e há algumas áreas, como a de construção civil, por exemplo, carecendo de mão de obra. E isso do nível de pedreiro até engenheiro. Aliás, a imagem que ilustra este post é de uma matéria de 14 páginas feita pela revista especializada em economia The Economist em novembro de 2009 sobre “o maior sucesso da história da América Latina”. Infelizmente eu não tive acesso à matéria completa, mas eu ainda a encontro. Já mencionei que pagamos a dívida externa? Bem, quem é da minha geração certamente se lembra da época em que isso parecia impossível.

É claro que nem tudo são flores. A saúde ainda anda abandonada por aqui, e o alinhamento do governo petista com ditadores como Hugo Chávez e Armadinejad não ajuda muito – mas também não é nada tão preocupante assim. Em nenhum momento Lula ou quem quer que seja do PT deu mostras de querer seguir a história de ditadura desses dois, até porque o Brasil tem péssimas memórias de seu próprio período ditatorial, e não creio que o povo, hoje, aceitasse esse tipo de coisa (eu espero, porque ainda me assusta brasileiros dizendo que “na época da ditadura as coisas eram melhores”. Isso porque eu tentei ser militar durante muito tempo, mas daí a dizer que a ditadura dava melhor condição de vida pra população... É muito discurso de mídia manipulada pelos estadunidenses). Em todo caso, o Brasil tem mantido boas relações em geral, seja com governos polêmicos, seja com os mais tradicionais, como manda a política da boa vizinhança – e, o melhor, sem a babação de ovo do governo PSDB pra cima dos EUA. Aliás, não deixa de ser engraçado ver os EUA criticando o apoio de Lula ao presidente do Irã, quando eles mesmos apoiaram o golpe de 64 aqui no Brasil, além de apoiarem um assassino no nipe de Pinochet, depois de cercarem o palácio do governo do Chile e “suicidarem” Allende. Oh, well. As ditaduras são boas desde que favoreçam o “american way life”. ENTÃO TÁ, NÉ.

(É mais forte do que eu. Falar de política sempre me leva a criticar o atual Império do Ocidente. Coisa de quem vive na colônia, acho. Como dizia meu ex-professor de conhecimentos bancários, “os americanos são ótimos. Adoro os americanos. Especialmente à milanesa”.)

Enfim, no todo, particularmente, eu não tenho do que reclamar do governo petista do Lula. Embora veja Dilma com bastante desconfiança, espero sinceramente que ela siga o mesmo caminho do seu antecessor. Funcionários de estatais, podem respirar aliviados porque vão manter seus empregos, sem privatizações; pessoal concurseiro, pode respirar aliviado e continuar seus estudos, porque vão continuar a surgir vagas. E pessoal da UFRJ (e demais federais), pode respirar aliviado porque, pelo menos pelos próximos quatro anos, a tendência é que aquela terrível fase de greves anuais não volte, e o ano letivo pode terminar na santa paz do Senhor. Ops! “Pregaram” por aí que a Dilma era uma atéia comedora de criancinhas; será que posso usar essa expressão, “santa paz do Senhor”, no caso?!

P.s.¹: O Serra deu a entender que ainda tem gás pra mais uma disputa eleitoral daqui a quatro anos. Eu realmente não sei se a Dilma vai ter o carisma do Lula pra descolar uma reeleição – ele, em compensação, se voltar ganha, mas duvido que volte; ele agora parece querer voos mais altos –, em todo caso, daqui a quatro anos qualquer que seja o candidato do PT ou do PSDB (argh!), vai ter que enfrentar um páreo muito duro; a Marina vai chegar RASGANDO. Guardem o que estou dizendo.

P.s.²: Estou curiosa pensando qual vai ser a matéria de capa da “imparcial” revista Veja. Com a vitória de Dilma, será que eles vão anunciar o Armageddon? Ou vão encenar o enterro do Brasil?